Os voos que podemos alçar

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Lembro-me de momentos que me encantavam quando eu era criança. Um deles era quando meu pai nos levava ao aeroporto de Viracopos para apreciarmos as decolagens dos aviões. Na época isso era um programão de domingo. Eu ficava de boca aberta vendo como aquela coisa enorme podia sair do chão com tanta classe. Aquele som dos motores, o som ambiente anunciando a partida. Aquele espetáculo tinha potência. Era o homem conquistando cada dia mais espaço no céu e no mundo.

Num domingo desses fui até a Academia da Força Aérea, em Pirassununga para ver, entre outras atrações e exposições estáticas de aviões, a incrível Esquadrilha da Fumaça, ou Esquadrão de Demonstrações Aéreas, como se diz formalmente no meio. Fui arremetida àquela sensação infantil, vibrando com cada manobra dos aviões. Tudo aquilo é um grande desafio. Pilotos e aviões num movimento, numa sintonia que requer muito conhecimento, treinamento, concentração, segurança, tecnologia, parceria, espírito de equipe, equilíbrio emocional… um verdadeiro balé.

Diante daquela demonstração me vi pensando no grande desafio que é viver. Decolar na vida é um termo que ouvimos com frequência e precisamos entender melhor como isso funciona.

Para decolar é preciso aprender a voar. E esse aprendizado tem a ver com tomarmos posse das nossas potencialidades e desenvolvê-las. Algo que acontece no ambiente que convivemos. Inicialmente no seio da família e posteriormente no social.

Quando vamos para o mundo hoje o que mais ouvimos é que precisamos ser bem-sucedidos, decolar na carreira.

Se dar bem na vida, ser bem-sucedido, voar, atualmente é sinônimo de sucesso profissional e de ganhar muito dinheiro. E isso é um grande engodo.

A psicóloga Heloisa Schauff afirma “que muita gente associa, equivocadamente, o conceito de bem-estar ao sucesso profissional. Isso costuma acontecer por que os louros da carreira geram visibilidade e proporcionam uma sensação de prestígio e poder, que infla o ego. Mas o papel profissional é apenas um dos diversos papéis que exercemos na vida”. O sucesso pode diminuir ou acabar, e a pessoa pode voltar a vida normal e ter que aterrissar. Estava alçando um voo longo, mas teve que dar uma pausa e voltar ao chão. Afinal, os aviões também pousam, ganham o chão novamente e aquele espetáculo termina.

 Até porque é necessário fazer a manutenção da aeronave, e até mesmo do piloto, para poder voar novamente. Mas, sem a sensação de poder de estar nas alturas, muitas pessoas são tomadas por um sentimento de vazio, de estar sem chão apesar de estarem em terra firme.

Outras conseguem administrar as mudanças muito bem, sabendo e sustentando o fato de que a estabilidade é algo que buscamos, mas nem sempre conseguimos. Uma hora temos que fazer um pouso e uma pausa. Somos todos muito vulneráveis às transformações que ocorrem no nosso meio. Meio físico, social, econômico e cultural.

Somos também muito suscetíveis à nossa história de vida. Sem querer podemos sabotar a nossa trajetória, perdermos o controle da aeronave, entrar em estol e cair, destruindo o maior tesouro que levamos décadas para construir. Mas, se não morrermos, tudo pode ser reconstruído.  Dessa vez, em bases mais sólidas, evitando as invasões ambientais nocivas e nos apropriando das nossas mais reais habilidades natas e adquiridas.

Pois, diante das turbulências, dos arremessos, das quedas, aqueles que tem uma estrutura pessoal mais firme, conseguem sobreviver um pouco melhor e achar mais rápido uma saída. Mas, não se enganem, mesmo os mais organizados emocionalmente podem perder a integração diante de um acontecimento negativo de grandes proporções.

Os que tem uma organização mais frágil, podem entrar em colapso e precisar de ajuda. Penso que essa possa ser a grande chance que a vida dá à algumas pessoas para se fortalecerem, e buscarem a si mesmas, pois muitas vezes, a estabilidade profissional gera uma falsa sensação de que estamos no caminho que escolhemos. Inúmeras pessoas vão sendo levadas a fazer escolhas impessoais que lhes garantem um lugar na primeira classe.

Mas…. uma frase que é atribuída a Leonardo da Vinci ilustra bem esse fato:

“Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para o céu, pois lá você esteve e para lá você desejará voltar”.

Seja de primeira classe ou não!

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