Pessoas e pessoas! O que faz a diferença?

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Em recente viagem à Minas Gerais, eu e o jornalista Jair Italiani, aqui do blog 50tões na Estrada, pudemos observar a diferença entre as pessoas de lá e as pessoas de cá, e falamos muito sobre isso. Fazemos parte das pessoas de cá, e penso que precisamos ficar muito atentos, para não perdermos uma característica tão importante e tão humana: o olhar para o outro.

Numa sociedade líquida, onde tudo é efêmero, até as relações, um aparelho de celular dura no máximo 2 anos, as roupas duram uma estação e a todo momento os olhos dos consumidores já cobiçam um novo lançamento. Uma relação dura esse tanto, sendo difícil tolerar diferenças e frustrações. Então dizer adeus fica muito fácil. Adeus celular, roupinha que saiu da moda, namorado normal. Tudo que é novo entusiasma, gera adrenalina. O velho e conhecido…. Aí vem o esforço para manter sempre o interesse pelo que já nos pertence. Tarefa que muitos torcem o nariz. É a era da superficialidade se impondo.

Em Tiradentes, tivemos uma experiência enriquecedora.

Depois de andar teimosamente, arrastando meu companheiro ladeira acima, no que parecia ser uma simples caminhada de 5 quilômetros, querendo chegar a pé no Museu do Automóvel, fomos ajudados pelas pessoas das lojinhas por onde passávamos, já suados e cansados. Um indicou o outro e nos arrumaram um táxi, que me salvou de não voltar sozinha para casa, tamanha minha teimosia. Esse rapaz, Otoniel, uma simpatia típica dos mineiros, nos levou, esperou, trouxe de volta, de quebra nos mostrou a cidade, falou da sua história, indicou um bom restaurante. Otoniel conversou e mais tarde nos levou até a Estação de Trem – sim, estávamos viajando de trem, afinal, estávamos em Minas onde o passado e o presente se misturam – demonstrando estar de bem com a vida, com os seus conterrâneos e com os turistas. Tudo a um preço que consideramos justo!

Então, você chega em outra cidade histórica nas Minas Gerais, em mais outra e mais outra ainda e repara que as pessoas de lá parecem estar num outro mundo. Colhemos mais experiências. Vou compartilhar com vocês.

Quando chegamos na pousada em Ouro Preto e fomos colocar nosso carro no pequeno estacionamento um susto. Uma rápida corrida de olhos e tivemos a nítida impressão que ele não caberia naquele espaço. A dona Vânia, outra simpatia em pessoa, encarregada de acolher os hóspedes, tinha aberto o portão. De repente veio um senhor e nos disse que se colocasse o carro branco mais para baixo daria. Foi pegar a chave, colocou a carro mais para baixo. Aí viu que ainda não dava e falou que o vermelho se ajeitando o nosso caberia. Pensamos que o tal sujeito fosse o dono do lugar. Que nada, era um hóspede, dono do carro branco, que estava de saída com sua família para assistir um espetáculo no teatro ao lado. Foi chamado o dono do carro vermelho e com muito esforço tudo se ajeitou. Todos foram muito solícitos e a família só foi ao teatro quando nos viu acomodados. Aí eu pergunto: Será que se fosse por aqui nosso carro estaria acomodado no estacionamento apertado? Ou teríamos que nos virar para achar um lugar em outro estacionamento? Posso ainda acrescentar que o senhor do carro branco era mineiro.

Numa lojinha de cachaça ao lado de uma antiga mina de extração de ouro, engatamos um papo com o vendedor que conversou, serviu uns copinhos da bebida para experimentarmos. Não compramos e o tratamento continuou o mesmo. Nos indicou lugares onde visitar e comer. Nos falou de um lugar para irmos à noite, que era do seu amigo, do comércio vizinho, que trabalhava ali de dia e de noite no Bar Jacubas e Mocotós. Tomamos um café no vizinho, dono do Bar, que a noite nos recebeu muito bem. Ouvimos boa música, comemos e bebemos muito, mais uma vez, por um preço justo. Conhecemos a mãe do vendedor da lojinha de cachaça, cozinheira do local, que caprichou na nossa porção. Quando a esposa do dono chegou, foi até nossa mesa, nos cumprimentou, se colocou à disposição.  Muita prosa, muita hospitalidade.

Na própria pousada a dona Vânia e a dona Edna, uma versão mineira da tia Nastácia, contaram a história do lugar, mostraram fotos, nos levaram ao andar de cima para colhermos mais riquezas daquele patrimônio, pois a exuberância de Minas não está só no ouro das igrejas e na história do lugar, mas nas pessoas que lá habitam.

Passamos por muitos lugares e a atenção e acolhimento que tivemos foi surpreendente.

O que será que acontece com essas pessoas que são tão “dadas”, sem querer nada em troca?

Talvez menos ambição, menos apego ao material e mais apego às pessoas e à história?

Sim, são muito ricos internamente, carregando em si o tesouro da cultura, da vida em comunidade, valorizando mais o fator humano. Olham uns para os outros.

Uma coisa que chamou a minha atenção foi que quando estávamos no bar a noite tinha um senhor sentado à mesa sozinho, próximo à dupla de músicos. Estava tomando sua cervejinha e beliscando algum aperitivo. Fiquei observando e pensando naquele senhor sentado ali num sábado à noite sozinho. Tal não foi minha surpresa quando vi a cozinheira vindo em sua direção e abraçando-o carinhosamente. Ficou em pé, por alguns minutos, ao lado do marido, apreciando a música e conversando ao pé do ouvido com ele. De mansinho, sai e volta ao seu afazer. É preciso dizer mais alguma coisa? Sim, lembrar de algo que está sendo esquecido: companheirismo e parceria entre os casais.

Além desse patrimônio humano as cidades históricas de Minas são muito interessantes.

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